I Festival de Teatro Corpo Ritual
Transcrição do debate com Ésio Magalhães (Palhaço Zobobrin)
Dr. Nelson de Carvalho Filho (Dir. Sup. Faculdades ALFA):
Membros da mídia, autoridade e a todos os presentes. Como sabem desde o final de semana a cidade de Goiânia é a sede do Festival de Teatro Corpo Ritual, um importantíssimo evento para a cultura do Estado de Goiás e o país como um todo.
O festival é composto de espetáculos, oficinas e encontros, sendo que as faculdades ALFA têm a honra de sediar os debates relativos a temas relevantes na vanguarda nacional de Artes Cênicas.
Esta noite daremos início a este ciclo de debates, que terá continuidade na noite de amanhã e ainda nos dois primeiros dias da semana que vem. A ALFA vem assim, reafirmando seu compromisso de apoio à cultura, sempre se disposto a aderir a propostas viáveis e inteligentes como esta que venham a produzir arte e reflexão sobre ela.
Esta região afastada do eixo econômico principal do Brasil, mas cuja civilização e gosto pelas manifestações artísticas, não é de forma alguma menor, merece ser respeitada e incentivada. A iniciativa da organização do festival é um grande esforço, é louvável, é digna da maior consideração por parte não só do poder público, mas também de instituições que vivem da educação e empresas em geral, que se preocupam com a formação de nosso povo.
Gostaria assim, de agradecer a presença de todos aqui, e especialmente dos convidados desta noite. Sr. Ézio Magalhães, com debates de Andréa Pita e Lua Barreto. E reafirmando uma vez mais o contentamento desta instituição em ser a sede deste evento. Passo, assim, a palavra para a organização do festival, para que seja dado início aos debates, sob a liderança do nosso amigo Nando Rocha.
Muito obrigado a todos, quero aproveitar a oportunidade para pedir desculpas por não ficar presente a todos os eventos, em função de compromissos anteriormente assumidos. Desejo a todos sucesso, riquezas nos debates, e que possam sair daqui diferentes do que entraram. Sucesso a todos e felicidades. Muito obrigado.
Nando Rocha (coordenador do festival)
Boa noite a todos! Bom, vamos dar início ao primeiro debate do I Festival Corpo Ritual. O grupo Teatro Ritual tem o imenso do prazer de apresentar o Festival do Corpo Ritual – Mímica, Clown e o Essencial, um festival diferente, temático, e com caráter multiplicador de conhecimentos. De Junho a Setembro de 2005, em Goiânia, Anápolis, Pirinópolis, Caldas Novas e Cidade de Goiás.
Hoje iremos debater sobre o clown, o trabalho de palhaço e sua máscara, a menor do mundo. Ézio Magalhães e o palhaço Zabobrin, integrantes do Barracão Teatro em Campinas, São Paulo.
Estudou com grandes mestres como André Riot, Suir Morrison, Chavovanocchi, Leris Colombaione. Foi palhaço no “Doutores da Alegria”, que leão leva a arte dos palhaços para os hospitais, e está ministrando a oficina “O mergulho na menor máscara do mundo”, dentro da programação do nosso festival.
Queria convidá-lo aqui para nossa mesa, Ézio. Quero convidar para debater com Ézio, Andréa Pita e Lua Barreto. Nós vamos começar com uma apresentação de Ézio sobre a arte do palhaço.
Ésio Magalhães:
Começamos o nosso debate falando porque o nosso enfoque com o palhaço é pela “menor máscara do mundo”, não é? Então, antes de falar exatamente do palhaço, eu vou começar a falar da máscara. Para que agente possa chegar então a menor máscara do mundo que é a mascara do palhaço.
Antes de mais nada boa noite a todos!
A máscara é um veículo, um meio pelo qual o homem começa a se encontrar com as manifestações de sua origem, com manifestações invisíveis, deuses. A máscara é então, um canal expressivo. E a máscara está ligada ao teatro desde o início, ela sempre teve esse caráter no teatro, que vai se transformando também. Esse caráter sagrado, ritual. A máscara é expressiva, ela tem uma expressão, corta os traços daquela manifestação a qual se refere.
E o palhaço? O palhaço é a menor máscara do mundo, é só o nariz. Fora do nariz, o que se tem é o rosto do ator, que é o rosto do palhaço. Eu vou sempre estar falando do ator palhaço, por uma questão que agente pode até conversar um pouco, mas por uma questão de nomenclatura mesmo. Nem todo palhaço gosta de ser chamado de ator e nem todo ator é um palhaço. Então, por isso eu sempre falo o ator e o palhaço, aquele artista que trabalha com a arte do palhaço.
Então essa menor máscara do mundo, ela fica somente no nariz desse artista, e o restante pe o seu rosto. Quer dizer, a máscara do palhaço começa, então, a manifestar alguma coisa que está muito ligada àquele artista. Então, diferentemente das máscaras que eram manifestações de deuses, de elementos sagrados ou de manifestações que o homem queria e espelhar, o palhaço começa a ser, pela menor máscara, um espelho do próprio homem, um espelho de si mesmo e do indivíduo, do homem dentro do seu contexto social, do homem dentro do seu contexto humano. O que ele faz? Quais são as dificuldades? Quais as dificuldades, os problemas, os prazeres deste homem?
Então a gente aborda o tema do palhaço pela menor máscara, justamente por conta desse espelho que está muito ligado aí ao indivíduo, ao homem e a mulher também.
Só pra gente falar um pouquinho do palhaço. O palhaço desde que o homem se reúne em bando, sempre há figura de um palhaço, sempre há figura que porta o riso, e trabalha expressivamente para se conseguir rir da própria beleza, da beleza do ridículo humano. Rir do ridículo humano e da beleza humana, sempre! A gente tem em algumas tribos indígenas norte-americanas, temos também tribos indígenas da América Latina, a gente tem a figura do palhaço. A gente tem a figura de um pagé.
A gente tem o portador desse canal com o riso, tanto com o riso que vai transformar os valores daquela sociedade, porque vai ser um riso crítico, rindo de alguma coisa a gente começa também a repensa-la: “porque a gente age habitualmente desta maneira, com esta mecânica? “Por que não diferente? Por quê esta mecânica nos torna tão rígidos? Vamos rir desta rigidez?” Pode ser um riso também comemorativo, um riso festivo, um riso até espiador de algumas malaias daquela sociedade.
No caso dos pagés, existem pagés, palhaços que, através dos riso recolocam algumas questões até para o chefe. Esse palhaço, esse pagé tem a permissão da tribo, quando o chefe está muito autoritário, está muito soberbo, não está ouvindo o que a tribo tem a dizer, o que ela deseja.
Ele tem a permissão divina para subir na cabana do chefe, e de lá de cima fazer (eu não sei o que posso falar aqui, o que posso afirmar), ele tem a permissão de defecar na cabeça do chefe, para que o chefe lembre também que ele é humano, e que ele também pode se sujar com aquela moleca, ele também é um de nós. Então esse riso também é um riso que questiona as autoridades, questiona o poder.
O palhaço está sempre ligado às questões de uma ordem estabelecida e de uma maneira de ser, de um desejo individual de ser ou de fazer dessa ou daquela maneira. Isso a gente vê se lembrar do Chaplin, por exemplo, o gordo que tem um relação tão maravilhosa com o Chaplinm o Carlitos e aquele garoto, e, de repente, aquele garoto tem que ir embora, por quê?
Porque a ordem estabelecida diz: “Você ao pode ficar com esse menino”, mas nós estamos vendo que é o melhor par o Carlitos, e é melhor para o menino que eles fiquem juntos. Então, o riso do palhaço tem esse caráter de repensar o que nós humanos estamos construindo no mundo de hoje. E pegando por esse caminho a gente pode pensar numa coisa também que é a utilidade, qual se é a utilidade de se ter contato com o riso? Temos várias teorias a respeito, mas afinal das contas o riso nos traz uma ligação com o prazer de esta aqui, um prazer e uma possibilidade de ver a vida de uma maneira mais leve, de poder rir dos nossos defeitos, dos nossos erros, dos nossos problemas, e assim se saber imperfeito, e assim se humano.
O palhaço é aquele que porta, de uma certa maneira, e concentrado naquela figura, os defeitos, os desajustes, a inadequação, ele é o perdedor por natureza. Lembrando, no circo, a figura do palhaço é aquele fenômeno artístico que trabalha com a possibilidade do sublime e o riso da morte, u seja, aquele trapezista, aquele equilibrista que faz alguma coisa sobre humana. Nenhum de nós pode fazer aquilo, nenhum de nós pode fazer um salto e voar como ele voa, e aquilo nos causa um espanto fenomenal, nos causa uma ligação com esse sublime: “Nossa, como podemos ser mais! Como somos divinos!”. E ao mesmo tempo nos traz o risco, porque se ele cai a morte está presente, então através da morte o circo nos liga a alguma coisa que é muito urgente, o sublime e o perigo de nossa morte, porque vivemos.
E o palhaço, quando ele entra no circo, elevem justamente para fazer as reprises, e o que é reprise? É o palhaço que vai subir no trapézio depois de uma apresentação do trapezista, onde todos nós ficamos maravilhados de ver aquela coisa belíssima, com aqueles fogos, aquela exibição fantástica de virtuosismo, e o palhaço vem ali justamente pra, na hora que pega no trapézio, a mão dele se estica e ele vai até a rede, nós vamos rir do braço dele que estica, porque ele não consegue, ele cai na rede. Aí na rede ele se embanana e não consegue sair dela, ele enfia o braço entre a rede, se amarra na rede e é preciso tirar a rede com o palhaço dentro para que o espetáculo continue.
Então, o palhaço nos traz uma idéia de imperfeito, tudo aqui no circo é lindo, é magistral, tudo é milimétrico e foi estudado pra isso. O palhaço chega ali e diz assim: “Sim, eu faço! Também eu faço! É o que? Trapézio? Faço!”, e ai lá. Só de subir na escada já é um problema pra ele, ele pode se prender na escada, não conseguir subir. E aí, quando ele consegue subir, “e agora que eu consegui subir”, ele vai agradecer todo mundo e desce tudo de novo, porque ele conseguiu fazer o maior feito da vida dele, que era subir naquele diabo de escada.
Então, o palhaço, ele nos traz dentro do circo essa ligação com o imperfeito, como eu estava falando de um canal de expressão artístico, de um canal que é a máscara, a máscara do palhaço que nos liga com nossa imperfeição, nos liga com ela de nobreza. A carência que for... Sensual, de alimento, o palhaço tem uma fome de viver.
Nando Rocha:
Ok! Vamos agora para a segunda parte, onde as nossas debatedoras vão fazer algumas perguntas. Qual das duas quer começar? Andréa?
Andréa Pitta (atriz):
O que eu queria receber do espetáculo, do que eu vejo ali, uma coisa que me interessou bastante foi a questão que a gente pode chamar de significante flutuante, não é mesmo? Então você pega coleira, não sei se era uma coleira de coroa da estátua da liberdade, não é isso? E aquela escova de vaso sanitário que se transforma na tocha e, o que mais?
Enfim, essas mudanças que você consegue. Como você foi construído isso? Como surgiu essa idéia, que me lembra um pouco o Chaplin, mas também pode me lembrar o Benini, Então, como que foi o itinerário mesmo, para construção desse espetáculo, a partir de um clown é esse que é mais político, o que ele... Não é?
Ésio Magalhães:
Bem... a origem do espetáculo eu até falava hoje, com as pessoas da oficina. A origem do espetáculo foi na verdade uma frustração muito grande de uma apresentação anterior em que eu estava muito incomodado com a questão da guerra dos Estados Unidos com o Iraque, eu estava muito... É que me incomodava muito isso em 2003. Já tinha um tempo de guerra, aquilo que me incomodava e numa apresentação eu fui receber um prêmio de melhor palhaço do ano, de um espaço em São Paulo, em si essa idéia do prêmio já era uma coisa um pouco crítica, de se premiar e tudo.
E a apresentação aí não foi boa porque eu comecei a trabalhar sobre a idéia do querer ser melhor, pensando muito na questão mesmo dos Estados Unidos, e aquilo me incomodava sobremaneira. E, de certa maneira, eu começava a dizer pro público: “O quê vocês estão pensando? Porque nos estamos fazendo isso? Mas eu apontava muito o dedo para o público, e essa idéia de trabalhar o riso, como um inocente assassino dos costumes, daqueles péssimos costumes. Eu fui por esse caminho do dizer; Porque vocês estão aí parados? Porque vocês não fazem a guerra parar? E aquilo é muito ruim pra mim, não foi uma apresentação muito boa.Eu saí com a pulga atrás da orelha e falei: “Mas o que é que eu estou falando pras pessoas? Que ela tem que fazer isto ou aquilo. Eu estou maluco?” Eu tenho que apontar o dedo para mim: Porque eu não faço? Porque eu não faço alguma coisa? O que eu posso fazer?
Aí me veio uma idéia, não artística que é a minha impotência diante de todo aquele acontecimento, aí o meu defeito, aqui o meu problema, a minha impotência de não poder fazer nada no mundo em que eu vivo pra que aquilo se resolvesse, e a vontade de apontar pra mim, então eu falei: Ah! Eu vou fazer um canhão com bombas de chocolate, porque são essas as bombas que eu tenho acesso, que eu possa me apontar. Então, construí o canhão e todo um processo, e as imagens, a coleira, e a coisa da privada. Tudo aquilo não começa da idéia, elas não são primeiro intelectuais. Elas são de trabalho, uma vez que você fala: eu quero um canhão. Você constrói um canhão e aponta para si, você vai trabalhar aquela idéia e vai trabalhar para em sala. E trabalhando nessa idéia, você vai encontrando caminhos, você vai encontrando: Opa! “Isso aqui pode ser uma arma”.
A coleta é um maneger capturator, um trem assim que mata todo mundo. É uma idéia que se constrói antes. O outro é o carregador do canhão, e isso depois vai se transformando em um ícone, em um símbolo, que é a estátua da liberdade, que na verdade nem é a estátua da liberdade, porque não tem túnica, não tem nada, mas é uma posição que lembra sim a estátua da liberdade. É a gente está falando de estátua da liberdade naquele espetáculo, não é? Então a origem do espetáculo, a origem dessas imagens, ela são muito mais uma necessidade de construção a partir de alguma coisa que me atravessa, do que criar símbolos para que eu fale para o público isto ou aquilo, porque às vezes as pessoas chegam pra mim e falam: Nossa! “A sua entrada ali falando aquele idioma meio estranho, é interessante porque me lembra o Holocausto”.
Então abre ai pra uma possibilidade de interpretação do público. Os elementos são muito concretos. O que eu preciso? De uma bomba. O que eu preciso? Um canhão. O que preciso? De um carregador de canhão. O que eu preciso? De arma porque estou indo para a guerra. Tudo isso é visto de uma maneira clwonesca, é visto de uma maneira dentro da palhaçaria.
Lua Barreto (atriz):
Você faz o espetáculo com um objetivo, não é? Você está questionando a guerra. Eu queria saber se você já teve alguma espécie de retorno. Se você sabe que tipo de questionamento as pessoas ficam com elas. O quê que as pessoas saem do espetáculo pensando?
Ézio Magalhães:
Eu não tenho o objetivo de transformar ninguém. Eu não tenho objetivo de dizer às pessoas. E pra mim foi muito interessante ter feito uma apresentação onde de repente, eu falo. O quê eu estou fazendo com a arte que eu estou escolhendo? Eu estou apontando pra todo mundo? Estou dizendo o que tem que ser? Peraí, isso já não é do âmbito do palhaço, isso daí já teria que ser... Já está mais para religião, é o padre que diz como é que a gente tem que agir, não o palhaço, isso daí já teria que ser...Já está mais para religião, é o padre que diz como é que a gente tem que agir, não o palhaço.
Então eu não tenho o objetivo de falar sobre a guerra exatamente, o meu objetivo maior dentro do espetáculo é: tocar as pessoas e faze-las rir. Agora, vamos rir do quê? Vamos rir simplesmente de preconceitos que já estão construídos na nossa vida, na nossa sociedade? Ou vamos rir de alguma coisa que realmente no afete? E eu começo falando de palhaço e falo sobre questionar a figura do chefe, e falo sobre a permissão que aquela comunidade indígena dava ao pagé de defecar na cabeça do chefe. E eu penso que é importante que a gente trabalhe com o nosso ofício com as questões que nos atravessam. Eu preciso tocara as pessoas, porque senão eu não estou fazendo de fato uma coisa que tenha preconceitos que a sociedade acredita?Investir num padrão de comportamento no qual eu mesmo não concordo? No qual eu mesmo questiono? Então as questões são do artista. Eu não proponho no espetáculo: “Vamos fazer diferente! Vamos fazer isso e aquilo e aquilo outro!”.
Os retornos que eu tenho do público são interessantes no sentido da sensação, o que causa. E eu comecei a falar pra vocês do circo, da idéia da morte, da idéia da relação com o sublime. E me toquei hoje de uma coisa. Os meus espetáculos, eles tocam, falam de morte. Tanto o www.parafreedom como “O pintor”, a morte está presente nesses espetáculos, a perda está presente.
Então, eu fiquei pensando nisso hoje. A relação com o sublime se dá por aí. E as pessoas me retornam dizendo: “Puxa! Aquilo me emociona, é tocante... a gente está rindo e de repente está chorando’. E aí eu não posso me privar de dizer que a minha formação é teatral. Ela não é circense. Então aqui eu tenho um ligeiro desvio de percurso no sentido do palhaço. Porque o palhaço do circo, etc, ele... Leres Colombain já falava isso: “Não mexe com símbolo, porque você vai mexer com símbolo? A gente não tem que mexer com símbolo. Não tem que fazer nada disso, porque nós somos palhaços!”. Ele é um palhaço de família tradicional de circo, está na quinta geração de uma família de circo que veio lá da Commedia Dell’arte italiana. E, ao contrário, a minha tradição não é circense, é teatral.
Então aqui tem uma outra coisa, então eu falo: “Precisa estar ligado ao que eu quero”. Mais do que preciso dizer precisa estar ligado à minha urgência de artista. Qual a minha urgência? Sobre o que eu quero falar, mais até do que eu quero dizer. Eu não sei o que eu quero dizer sobre a guerra, eu nunca estive numa, embora a gente viva num país que exista um outra guerra,, às vezes até sem armas. Mas ela está presente em nossas vidas, todas as guerras. Não só do exército, não só os militarmente construídos.
Então o palhaço, mais do que tudo pra mim, é esse viajante das emoções, o palhaço ele precisa transitar. Justamente para mim a função do palhaço é subverter a ordem, é colocar o mundo sobre uma outra visão para que a gente possa repensar. Eu não posso deixar de falar sobre as questões que me afetam, através do riso... O objetivo desse espetáculo é viver o momento do riso que te toque, não o riso fácil, não um riso nocivo.
Andrea Pitta:
Então, eu vou acabar fazendo uma última pergunta múltipla, não sei, mas eu conheço você um pouco antes, eu acho que do trabalho dos Doutores da Alegria. E queria fazer um pergunta assim: o que o clown em você? Seja como ator, seja na tua vida? E aí já vou aproveitar e fazer uma outra pergunta, que eu acho que vou estar misturando um pouco, mas... Eu quero fazer essa pergunta, que eu acho que é: em algumas tradições se fala de Branco e Augusto, a Sue Morrinson fala de estágios de dentro das seis máscaras, estágios de manipulação, entre a manipulação e a submissão do clown, não é? Eu queria que você falasse um pouco se for possível, do que é estar ministrando oficinas pra pessoas que querem “encontrar o clown”. Quando a pessoa acha que é Branco, mas é o Augusto, como é que é esse fogo? De estar lidando com fracassos, desilusões e outras...
Ésio Magalhães:
Bem, a primeira pergunta é sobre o que muda na vida depois de um encontro com o palhaço. E um canal específico, pra mim é uma delícia, na verdade, encontrar um canal que te possibilite encontrar com as pessoas. É um teatro diferente, o que a gente do Barracão faz e o que o palhaço faz, é um teatro diferente, a platéia esta aí, eu sei que ela está aí, eu sei que ela sabe que eu estou aqui e nós nos relacionamos, existe no passado desse teatro do palhaço uma interação, existe uma vida acontecendo. Ali, o momento presente, ele é presente pra todos nós. Eu que sou um palhaço estou aqui apresentando alguma coisa, vocês que estão aí vendo, ou melhor, até participando de alguma coisa. O que muda? Muda! Muda a maneira de ver o mundo, não digo que sou uma pessoa especial porque sou palhaço, não se trata disso, mas... Muda quando você começa a ver que errar é que vivemos, em 2005, é completamente inaceitável, completamente! É a destruição errar! E a gente vê isso em muitos lugares, não é? Em todos os lugares. Continuamos sendo humanos, errando um tanto... Então, eu acho que o jogo, o lidar com o erro, é uma coisa que se torna um pouco mais leve, um pouco mais possível do que antes.
A outra pergunta, sobre o Branco e o Augusto, aí eu já respondo também essa pergunta múltipla d questão de ministrar um curso, quando alguém diz lá: “Eu sou o Branco e eu sou o Augusto”. O que é o Branco e o que é o Augusto? É um relação entre o homem e a desordem. Entre o que mantém e o que vem, o que inova. O que conserva e o que revoluciona ou, até melhor, o que conserva e o que redimensiona a situação. Entre a mãe e o filho, a mãe é quem educa, a mãe é quem diz; “ Não! Vai tomar banho!”. O filho é quem diz: “Que banho? Eu ainda vou me sujar”. O filho é aquele que vê o mundo de uma maneira fantástica, a mãe é aquela que conhece o mundo de uma maneira fantástica, a mãe é aquela que conhece o mundo, e sabe que não é tão fantástico assim.
O Branco é a ordem, o Augusto é esse... É chamado também de excêntrico não é? Excêntrico, sem centro, fora do centro, ele é esse maravilhoso, que vê o mundo como uma criança. Já o Branco é... Tem até um texto do Fellini, muito interessante, que ele vai pegando políticos, artistas e vai colocando: esse é Branco, esse é Augusto. Muito interessante. O Branco é aquele que: “É assim que devemos nos vestir?”. Então ele vai se vestir daquele jeito! Ele vai se vestir de uma maneira tão elegante que vai ficar muito ridículo, porque ele vai pegar e levar a elegância até as últimas conseqüências. Então vai ficar elegante pra mais, a gente vai ver: “Nossa! A gente precisa ser tão elegante assim? Será?”. Já o Augusto não! O Augusto diz: “Tem que ser elegante? Então beleza! O que eu tenho pra ser elegante? Eu tenho essa camisa, tenho isso aqui, isso aqui...”. Ele vai se remendando. Por isso que o sapato é grande, porque o Branco não tem condições, então, geralmente ele usava o único sapato da família, então qual é o único sapato da família? O sapato do pai. Então ele ia pra primeira comunhão com o sapato do pai, um tijolão, um sapato 48, ele calçava 30! Está indo pra primeira comunhão então por isso a idéia do sapato grande.
Então é muito complicado, no entendimento, eu chegar e dizer assim: “Eu sou um palhaço Branco!”, Mas como assim,? Você é um palhaço Branco? É como o mundo de hoje, A gente está no primeiro mundo. A gente está em países que mando e outros que seguem o roteiro. Quem é que manda? E quem segue o roteiro? Depende de que pais você está falando. Se você está falando de Brasil e Estados Unidos, se você está falando de Estados Unidos e França, se você está falando de França e Alemanha. É a relação entre ele que vai me dizer quem é o Augusto. Quem é o manipulador, quem é o submisso., quem é a ordem, quem é a desordem. Eu por exemplo, tendo ao Augusto, mas quando estou em alguns espetáculos chamando pelo comando, eu sou o Augusto em relação ao Sam, que está me chamando pelo comando. Já com o Wille eu exerço uma função ora Branco ora Augusto. E aí a Smeson fala uma coisa que eu adoro sempre: “ A única regra do palhaço é que não tem regra nenhuma”,. Eu acho isso ótimo porque não dá pra gente dizer: “ Eu sou Branco, então já tenho estabelecido como eu tenho que agir. Eu sou o Augusto, então já sei como tenho que agir”, Não! A relação se instaura no encontro, é no encontro que eu vou conseguir saber como é que eu tenho agir, porque aí eu já estou em relação, não é? Certo?
Lua Barreto:
É... eu sei que você vai querer me matar, mas já que ela fez várias perguntas, eu também posso! Eu queria que você falasse um pouquinho das diferentes origens do palhaço e queria que você falasse do nosso palhaço, aquele que vem lá do cirquinho de lona furada. E... aproveitando isso, você falou do ator e do palhaço, eu não sei se é regra, mas dentro do palhaços que eu conheço... Eu tenho um pouquinho de formação teatral e um pouquinho de formação circense. Parece-me que está havendo uma transformação da arte do palhaço, está indo mais pro teatro. A gente tinha aquela imagem do palhaço de circo: “O palhaço é a alegria do circo!” Eu trabalhei em alguns circos e o que vi foram artistas que ficaram velhos pra fazer os seus números, e aí se tornavam palhaços para sobreviver.
E eu conheci muitos palhaços que não eram palhaços, eles estavam trabalhando como palhaços porque eles não tinham outra função dentro do circo. Os melhores palhaços (se a gente classificar assim) que eu conheço hoje são de teatro, com a exclusão do Coxixo, que, aliás eu nem sei se está desempregado por que ele era do Circo Garcia, que eu nem sei onde está agora, que é um palhaço essencialmente de circo e é maravilhoso! Fora ele eu acho que todos os palhaços que eu conheço são do teatro. Queria que você falasse um pouquinho sobre isso.
Ésio Magalhães:
Bem, então tem duas coisas, as várias origens do palhaço e onde o palhaço está hoje, como o palhaço está hoje, não é? Então vamos começar da origem. A origem do palhaço, assim como a gente entende o palhaço hoje, tem ligação com a origem do circo, lá do circo Equestem, do Felipe Ateli, mil setecentos e tantos, mil e oitocentos. Nesse circo Equestem, aí que nasce o palhaço de uma maneira onde a aristocracia começa a colocar o seu valor maior: “O cavalo, quantos cavalos você tem? Eu tenho 10 cavalos, é demais!”. Então ele começa a colocar um valor importante pra eles dentro do espetáculo. Começar a fazer um espetáculo com seu maior valor. O palhaço começa aí, ele começa a fazer uma crítica a isso. O palhaço era aquele que entrava par montar no cavalo e montava. Ao invés dele montar com cavaleiro, ele montava ao contrário! Ele diante do rabo do cavalo e andava em marcha ré. Então a origem do palhaço como a gente conhece vem desse circo eqüestre, vem junto a...
Por isso novamente o nariz vermelho, não é? Porque caía muito, então a primeira coisa que bate no chão é o nariz, vermelho. Esta é uma das teorias, uma da idéias de porque o nariz vermelho. E uma outra é que o palhaço, sempre, é uma figura que nos dá muito riso, é um bêbado, com certeza um bêbado, com certeza um bêbado que vem andando, trupicando, meio torto, o nariz vermelho de tanto beber. Então, por isso o nariz vermelho.
Mas voltando a origem do palhaço, então o palhaço como a gente conhece hoje, vem desta origem, vem da origem do circo. A gente tem várias escolas de palhaço. Então você tem o palhaço europeu. Aqui no Brasil a gente tem tanto um quanto o outro, a gente tem um palhaço popular, um palhaço que vem das manifestações populares, dos brinquedos, dos folguedos populares, e que você vê muito, por exemplo, uma figura bem maquiada, às vezes com a cor negra, todo pintado de preto, aqui em volta do olhão (mostra o olho), Então você tem outras escolas, outras escolas, outras maneiras do palhaço se manifestar, mas se a gente vai falar do palhaço de circo, aí a gente ta tirando, a gente este excluindo esses palhaços dos brinquedos populares.
E, o que acontece hoje com os palhaços, o que... Você diz: “Os melhores palhaços são os palhaços do teatro”. Eu... Eu não afirmo isso... Não! Eu não afirmo isso porque depende muito realmente de ande a gente vai ver esse palhaço. O circo ele tem uma tradição, que é: “O espetáculo tem que continuar. O espetáculo não pode parar”, até porque se o espetáculo Para como é que agente come? Então o circo hoje tem um movimento, até agora, ele começa a ter um movimento até agora, de elevação, de sustentar, de rever o circo. Quer dizer, começa com a idéia do circo novo, tem um pouco do impulso do Circo de Soleil, quer dizer na verdade só um pouco do impulso do Circo Soleil já virou outra coisa completamente diferente, completamente diferente. Talvez seja assim, talvez em dois mil e quinhentos as pessoas estudem isso e digam; “Olha, o circo virou isso e tudo mais”. Eu fico torcendo pra que não, pra que a gente ainda tenha o acontecimento circense não só o da virtuose como a gente vê ali no Soleil, mas enfim. O circo hoje, no Brasil a gente vai ver alguns circo e... É triste ver o terreno que se está perdendo não é? O circo está perdendo terreno. Então quando eu vejo movimentos como a FUNARTE agora que lança um Departamento do Circo, eu falo: “ Uau1 Que coisa boa! Tem coisa acontecendo, agora podemos continuar, agora o circo pode continuar”.
Porque precisa, o circo precisa continuar, ele é uma coisa importante pra nós. Então esses palhaços agora estão em reformulação, não são mais esses palhaços de circo não eram palhaços, eram velhos que não podiam mais fazer acrobacias, não podia mais fazer isso, aquilo, aquilo outro e viraram palhaços, e realmente. Realmente. Por que, até Leres Columbaine fala uma coisa, uma coisa que é muito boa, ele fala: “O palhaço ele tem que saber um pouco de malabarismo, um pouco de mímica, um pouco de música e um pouco de palhaço”. Ele tem que saber um pouco e um pouco de tudo isso, um pouco, por quê? Porque ele não é especialista em nada. Ele vai se servir de um monte de coisa pra... Trazer o riso.
Então, hoje o que a gente vê: o palhaço ele vai entrando em outros âmbitos, ele vai entrando no hospital, ele vai entrando no teatro, ele vai entrando em outros lugares, em outros ambientes, vai saindo do circo e entrando em outros ambientes, ele vai se transformando. O palhaço, por exemplo, que a gente vê no teatro é um palhaço teatral, ele vai te contar uma história, o palhaço do circo ele não vai te contar uma história, ele pode até fazer circo teatro. Mas o que você vai ver ali é o palhaço fazendo tal personagem, entende? Não é o ator, não é o teatro, é o palhaço fazendo aquele personagem. É o palhaço fazendo Hamlet, ´e o palhaço fazendo é... Júlio César, é o palhaço fazendo... Alguma coisa. N verdade você não vai ver Júlio César, de maneira alguma, nesse circo teatro, você vai ver o palhaço enlouquecendo com a idéia de ser Júlio César...
Andrea Pitta:
Mas aí responde aquela que você não respondeu: o que o clown muda na vida do ator?
Ézio Magalhães:
Ah1 Mas aí, aé tem outra coisa, esse ator para o qual você pergunta...
Andrea Pitta:
...Que vai fazer outras coisas que não sejam necessariamente clown, o palhaço, vamos dizer, que a gente está chamando aqui...
Ésio Magalhães:
AHAM... Porque aqui você está falando com o ator, palhaço também (eu fico sempre levantando a minha bandeirinha de palhaço!). Mas... ah, eu já fiz outros trabalhos que não são palhaço, que são trabalho de ator, entende? O que eu to dizendo do circo teatro é, inclusivo um dos espetáculos que a gente tem, que é a Julieta e o Romeu, é justamente uma idéia circo teatral...