quarta-feira, 7 de abril de 2010

O corpo cômico do ator - II Festival do Corpo Ritual

II Festival do Corpo Ritual


Transcrição de “O corpo cômico do ator” com Ricardo Pucetti

Ricardo Pucetti:

Boa noite! É... eu estava falando para as minhas colegas de mesa, que eu vou falar muito pouco, prefiro não falar muito agora, assim, e depois eu já abrir pra gente começar a conversar, e conversar com vocês porque fica mais interessante, eu acho. E eu não sou de falar muito! Assim direto, prefiro mais conversar com vocês!

É... O tema de hoje é o corpo cômico. Pra gente do LUME, o corpo cômico está muito ligado ao trabalho do palhaço, que foi como a gente começou a tentar entender como funciona o corpo na busca do riso. Então pra mim! O palhaço ele é como se eu pegasse uma lente de aumento e colocasse na frente de uma pessoa e essa pessoa aumentará o embrião do palhaço dela, no caso ele, por exemplo. Por que isso? Porque não é o personagem que se constrói de fora? Ele acaba virando com o tempo uma figura teatralizada, é claro! Mas ele vem revelar para o público quem é essa pessoa que está ali na frente dele tentando provocar o riso em primeiro momento, eu digo primeiro momento porque também não provoca só o riso, é uma coisa um pouco mais abrangente.

Isso desde o início fora a nossa busca. Como é que a gente consegue, então, fazer esse corpo revelar essa pessoa que é dona do corpo, esse corpo que é a pessoa. Então a gente desenvolveu algumas maneiras de trabalhar, que abre caminhos pra isso. De maneira geral, o palhaço quando atua, ele está sempre numa situação de desconforto, por quê? Porque ele trabalha com o erro, com o fracasso o público ri dele? Então a gente entendeu que é, digamos, seria a base de construção do palhaço, como ele consegue lidar com essa situação de desconforto, de estar equilibrando no arame, de a qualquer momento fazer coisas que não vão funcionar. E pra isso a gente desenvolveu exercícios mesmo pra colocar as pessoas que estão trabalhando como aprendizes de palhaço, a gente fez isso com a gente mesmo, o Luís fez com a gente. Que faz com que a pessoa, sem pensar, ela reaja a essa situação do desconforto. Basicamente a nossa metodologia de buscar esse corpo é essa. É esse princípio. Depois vem outro aspecto que é como esse corpo é capaz e expressar de uma maneira... Que o impulso que esse corpo tem se concretize rapidamente em ação pro espectador, pra quem ta vendo, pra quem ta junto com o palhaço. Então, um corpo que não tenha filtro, um corpo que pense fazendo, que sinta e faça, que tenha o menor tempo possível entre o impulso físico de uma idéia de uma sensação e ele já concretiza isso, como se tudo viesse junto. Pra isso, tem outro treinamento, que é de você trabalhar esse corpo, e é o que a gente tem feito nessa semana, hoje eu tentando fazer aqui com o pessoal aqui em Goiânia e que são vários caminhos de você buscar essa conexão com você mesmo, e ao mesmo tempo tentar tirar um pouco esse domínio da cabeça, que por educação, por sociedade, a gente acaba tendo no nosso dia a dia, uma outra maneira de pensar.

Isso, aos poucos, então, o palhaço vai construindo um repertório de ações, um comportamento físico e uma lógica que é física e também é mental, uma maneira de ver o... Porque o palhaço, como eu falei, ele não é um personagem, ele acaba sendo uma maneira de ver o mundo, acaba sendo um lugar de onde você vê o mundo e com o qual você se relaciona. É... Então vou começar de novo. Então, meu nome é Ricardo Pucetti...

Platéia : Ahhhhhhhhh...

Ricardo Pucetti:

Sim, pra falar um pouco da técnica, que eu queria falar um pouco dessa técnica, que vai se construindo aos poucos. E técnica pra mim de estar presente no momento, de estar presente e estar agindo no momento em que ele está! Então o palhaço tem o espetáculo dele, ele tem o número dele, mas ele não faz o espetáculo dele ignorando o público, ele não faz a estrutura que ele tem, a sequência que ele tem, sem tentar de alguma maneira fazer com que o público faça parte dessa estrutura, porque no fundo, da maneira que a gente vê, o espetáculo em si é o menos importante, o mais importante é o que acontece entre a gente, é esse diálogo. Então, a técnica, na verdade, todo esse trabalho do físico, esse trabalho de entender, de precisão, do foco, tudo isso para que o público te siga, de construção dos números da cena, tudo isso tem como único objetivo o palhaço consiga uma disponibilidade desse corpo inteiro, corpo, pensamento e voz, no caso de quem trabalha com a voz, com o palhaço tudo isso capaz de fazer aquela estrutura, de fazer aquele algo com o público e o público se sinta co-atuante, co-participante, ele constrói o espetáculo junto. Quando ele ensaiar um trabalho ensaiado um palhaço, trabalhar um palhaço na sala e horrível, por que você não tem o público, então você tem que imaginar o público, então você tem que fazer mesmo assim pro espaço, você tem que fazer pra fora, pra imaginar e pra desenvolver maneiras de reagir, então na sala isso vem na tua imaginação. Na nossa formação, a gente trabalhou muito na rua. E eu inclusive antes de trabalhar no LUME, eu trabalhei onze anos como palhaço na rua, e a minha paixão era o palhaço, não tinha a mínima noção de como ser palhaço. Então eu coloquei pra mim um objetivo, uma regrinha, então todo sábado eu saía como palhaço da minha casa em Campinas as nove da manhã eu me vestia, cada vez eu tinha um figurino, a minha maquiagem e tudo, e eu tinha que chegar até o centro de Campinas, que era onze quilômetros e voltar. Então, no início, sem ter a preocupação nenhuma de fazer rir. Por que eu não sabia fazer ninguém rir, eu não tinha nada pra fazer na verdade. Então era assim: “Vou levar o palhaço pra passear! Vou passear com o palhaço!”. Então ia! Aos pouco eu fui me dando conta de coisas que eu fazia, e que eu gostava. Então tem esse outro lado o palhaço é um pouco afetivo. Ele gosta de ser daquele jeito que ele é, né? Ele se aceita daquela maneira. E fui descobrindo pequenas coisas, teve um outro momento, uma outra etapa, que eu descobri o outro, que eu descobri que tentando atravessar a rua, por exemplo, de repente eu me abria e via que lá longe tinha uma pessoa parada. Tinha um que ficava vendo, olhando pra mim. Então essa consci6encia do outro, do fora, começou pequenininho. Então toda a minha maneira de atuar de tentar usar o espaço, por exemplo. De brincar com o espaço, brincar com as pessoas vem dessa coisa da rua, de ter construído o meu corpo, meu palhaço na rua, né?

E com o Simi foi a mesma coisa, a gente ia de dupla. Já que foi decidido passar por essa iniciação que eu disse! Ia pra rua também com essa coisa de, não vamos fazer nada! E aos poucos a gente foi entendendo como a gente funcionava em dupla. Eu acho que dá um pouco uma idéia disso, do tempo. Daí a gente já passa talvez com questões mais concretas de vocês, aí a gente pode conversar mais, pra mim eu acho que fica mais fácil.

Ana Cristina:

Bom, então, a gente pode de repente iniciar o bate papo, então posso ir organizando quem quiser falar alguma coisa. Então eu já vou fazer a primeira pergunta. E a gente tem notícias, a gente sabe, a gente conhece o palhaço de ir ao circo, não é? Então o palhaço que eu conheci na minha infância era aquele palhaço, com aquelas gags, no picadeiro entre um número e outro, e aí assim, u tenho uma curiosidade. Como é que foi essa coisa dessa apropriação do teatro, ou melhor, do palhaço de circo no teatro sabe?! É por que uma vez o Marcos conversando com um senhor já de idade que era palhaço de circo, né? E era assim um desses ambulantes. E ele contou que no circo a coisa que ele achava mais interessante era que; qualquer um, você podia pegar alguém e treinar tecnicamente pra fazer um: trapézio, aquela coisa de motocicleta, até mesmo a coisa de amansar um tigre. Aquela coisa toda, mas que a única coisa que não tinha como ensinar, que a pessoa já tinha que ser, era palhaço. Então a gente tem a notícia de que é uma coisa tradicional, que é passada de pai pra filho, uma coisa de tradição familiar. De repente, a gente ta vendo que o teatro se apropria disso e inclusive cria uma metodologia, pra criação do palhaço. Então eu queria saber assim... como é que foi essa coisa dessa apropriação e como é que essa metodologia, essa noção técnica realmente começou a se construir?

Ricardo Pucetti:

Historicamente, é a coisa da passagem do palhaço pro circo teve uma fase dos grandes palhaços, da década de trinta, vinte, quarenta e até cinqüenta. Eles eram astros, como hoje Madona é a maior astro do mundo, todos a conhecem. Michael Jackson e nessa época todas essas pessoas eles eram astros.

Então eles eram de circo, de origem de circo, o Groc começou na rua, depois foi pro circo, mas todos trabalhavam no circo! Alguns de família, igual Leris Colombaioni, hoje na sétima geração já só trabalhando com palhaço, então eles eram de circo! Então nessa época eles fazem essa transição, eles de Milão, nos grandes teatros europeus e nos circos fixos da Europa, que são esses circos internos, que a construção é de tijolo! E começa uma série de transição, acontece que no Brasil inclusive começou a ter uma quebra na tradição de transmissão, na verdade na transmissão dessa tradição pra palhaço. Então as famílias começaram a se dispersar, os velhos palhaços começaram a parar, e não ter substituto a altura deles, não é? Então teve uma outra fase que é, nessa década de cinqüenta, principalmente de uma outra influência do circo americano, que tinha uma outra maneira de trabalhar o palhaço, onde o importante pro palhaço americano é o (? ). O que ele fazia. Pros europeus não era isso, era como eles faziam as coisas, qualquer coisinha podia, qualquer pequena bola, idéia boba era o material suficiente pra eles trabalharem, porque eles trabalhavam com o povo.

Então teve essa quebra na tradição da transmissão. Na França e Itália, mais ou menos na década de trinta, quarenta, o Copo Jacopô e um grupo de atores de teatro ligados a ele começaram a fazer um resgate da máscara teatral, que também estava perdida nessa tradição, estava sumida, dos pequenos resquícios do interior da Itália e tal. Então eles fizeram um resgate das Commedia Dell`arte de todas as outras máscaras e uma das pessoas desse grupo então foi o Jacques Lê coq na década de sessenta que trouxe para o teatro o trabalho do palhaço como instrumento de trabalhar o ator, assim como as máscaras, a neutra. Depois o Lê coq metodologizou maneiras de trabalhar a máscara para que o ator se trabalhe enquanto ator independente se ele vai trabalhar com máscara ou não, então o palhaço entrou nessa aí, e foi aí que é... Isso eu digo na nossa geração, digamos. Foi daí que veio então esse crescimento do palhaço aparecer nos palcos. No Brasil esse movimento chega também depois.

No Brasil é mais ou menos na década de oitenta que pessoas como Luis Otávio e a Mariana Lopes, de Porto Alegre. Aqui de São Paulo que trabalharam, não o Luis com Le Coq, as duas com o Lee e o Luis com o Lee também, o Lee foi aluno do Le Coq, também traz isso pro Brasil. Agora é esse resgate que o Le Coq fez, eles estudando os palhaços de circo que ainda existiam. Quem viu o Les Clown do Fellini, não sei se vocês já viram, é um documentário, ficção sobre os palhaços, que ele vai passando e entrevistando e mostrando os palhaços velhos. Então o Le Coq trabalhou com esses caras, não é? E então foi daí que isso veio e foi chegando a nós, hoje em dia uma coisa interessante de ver é que quando a gente tem contato com pessoas de circo que (?) do trabalho, o retorno que eles nos dão é que, eles ficam muito felizes, que o que está acontecendo agora, é que pessoas desse movimento é que estão fazendo um retorno pro circo. E que para eles isso é bom também, não é? Outra (?) que eu estava falando agora há pouco pro Carlos ali, outra (?) que foi esse pai, morreu agora a pouco foi um dos poucos palhaços do Brasil, quase cem anos que ele tinha, então em oitenta e... Noventa e três a gente fez uma homenagem a ele. Fizemos um espetáculo pra ele tal... Quando ele viu o espetáculo que vocês viram aqui, ele falou: “Há! Que interessante o que vocês fazem, e o que vocês fazem é o que o pai do meu avô fazia”. Que eram os palhaços mímicos que não falavam. Então, de uma certa maneira, é como... Por que é assim, eu acho que foi assim que o riso sobreviveu, ele sempre esteve presente na sociedade humana e sempre se recriando, e se realimentando e as coisas como vão e voltam. E o palhaço parece que ele sempre desabrocha nas formas mais variadas que ele têm, dos estilos mais diversos, ele sempre desaparece ou toma importância em momentos em que o mundo está em crise, é somo se o mundo precisasse do riso, por que está tudo muito estruturado e o palhaço desestrutura as coisas, ele relativiza as coisas, ele bota as coisas de ponta a cabeça. Então não seu ao certo se respondi.

Público:

Sim! Sim! Sim!

Andréa Pitta:

É... Eu preciso fazer uma introduçãozinha assim eu me sinto honrada de estar aqui do lado do Ric. É eu acho assim, que eu não tive... Não assisti a circos na minha infância e eu tive uma (?) na minha infância. E aí eu acho que eu vivi essa coisa do circo mesmo do palhaço, com eles, com o Teotônio e com o clown do Simi (Carlos Simione, integrante do LUME). Então realmente mexia muito comigo. A pergunta que eu tenho pra fazer, na época que eu estava por lá era corrente essa coisa de diferença entre palhaço e clown, não é? E hoje parece que entrou meio... Enfim essa questão, essa pessoas parece meio que desprezam porque: “Há parece um monte de clowns que não eram clowns, enfim...”. Eu queria que você falasse um pouco dessa diferença, porque eu sei que tem lá o bufão. E desse bufão que vai dar a origem ao palhaço que a gente conhece do circo, e o bufão é aquela figura mais... Grotesca, que tem braços, pernas e um exagero, os membros deformados e tal, e isso... Quer dizer vai caminhando pro palhaço como a gente conhece assim do circo e tal... E aí o clown seria... É então pra você falar disso e também pra ir caminhando daí, pra questão do... Tem uma frase que eu lembro, eu não sei onde eu vi, mas que diz: “Pra ser um ator é preciso ter essa doença do clown.” É preciso ser antes de ter passado por isso, não é?

Ricardo Pucetti:

Eu que falei

Andréia Pitta:

Não mas eu acho que foi de uma revista, acho que foi você que me passou uma vez ou foi o Enrique. Mas eu acho que é isso...

Ricardo Pucetti:

Essa coisa de definir é muito interessante, é muito difícil de falar o que é o palhaço, é meio complicado. Então ta são várias perguntas! Na verdade a diferença de palhaço e clown não tem diferença é uma questão de termo e de espaço e de onde você vem. Então por exemplo, quando o Luiz chegou no Brasil ele tinha ficado dez anos na França então ele voltou falando “portunhês”, português com francês, então ele começou a trabalhar com a gente ele falava clue, que é como se diz na França. É uma tradução. Clown na Inglaterra é clown, na Itália é Palhacio e palhacio vem duma expressão que antigamente eles... É daí que vem o português. Antigamente eles usavam palha de colchão para se alcochoar, por na roupa por que eles trabalhavam muito a queda, então para se proteger.

Então era uma coisa tipo uma lógica, é lógico que acabou ficando um pouco de que o palhaço é do circo e que o clown é do teatro, isso foi o que acabou ficando justamente porque esses mestres aí que trouxeram para o teatro eles são ali franceses. Mas na verdade pra mim não tem diferença, eu acho que é a mesma maneira de trabalhar inclusive, na verdade, tudo é igual. Assim, mesmo o que você (Ana Cristina) falou da metodologia de se construir é, eu tive que... O espetáculo que eu vou fazer sábado ele foi dirigido por um palhaço italiano. O Leris Colombaioni e que é o fato de ter ar dessa família que eu falei aí. Trabalhei com ele quando ele tinha 78 anos e era uma enciclopédia no ensino do palhaço. Caia o meu chapéu eu tinha trinta maneiras de pegar o chapéu, por exemplo. Todas da tradição!

E a maneira como essas pessoas foram iniciadas no palhaço, na verdade foi a mesmo maneira como eu fui iniciado só que de um outro jeito, eles não tem um discurso, eles não falam, em iniciação o grupo, eles não colocam nesses termos, o Arrelia, por exemplo, conta... Ele descreve no livro dele a iniciação dele. Que é para isso a questão que eu acabei de falar essa coisa do desconforto. Foi isso, o pai, era o palhaço principal. Daí teve um dia o pai ficou velhinho, doente, aquela coisa clássica não estava conseguindo mais trabalhar. Daí então eles começaram a procurar na família quem que ia ser o palhaço, testaram o... Arrelia, ele era Arrelia o nome porque ele era muito briguento. Arrelia é de briga! Então ele era muito orgulhoso, jovenzinho na época 18 anos por que ele era acrobata, trapezista. “Uh! Palhaço nem, eu sou o acrobata”. Ele fica de ponto ali e ali e chegava nas cidades e ele era o acrobata. “O palhaço todo mundo têm! Ah! O palhaço, as meninas, ah! O palhaço!”. Então o negócio era com os acrobatas então o Arrelia não queria ser palhaço de maneira alguma. Então eles tentaram com o primo, o tio, o irmão... e até que ninguém funcionou. O que fizeram: “Agora é você agora”. “De jeito nenhum, não vou, não quero saber de ser palhaço nunca, nunca, nunca”! A força os irmãos, os primos foram lá e pegaram ele lambuzaram, fizeram uma máscara, botaram uma roupa e jogaram no picadeiro, mas jogaram a força, no que jogaram ele tropeçou e caiu, mas caiu mesmo de verdade, já pensou aquela coisa do picadeiro e ele se estatela. O público cai de costas, rindo achando que é... Quanto mais ele ficava bravo ali dentro e o público ficava rindo dele bravo de verdade, mas riam. Daí uma figura dessas que fazem troca de números, que são as ‘barreiras’ acho que chamam... Que ficam ali atrás, o outro que era um sujeito ruivo baixinho fininho, começaram a rir dele, ele arranca um pedaço do picadeiro, uma tábua e sai assim correndo pelo circo todo atrás do baixinho. “Se ele pega ele mata o baixinho”. E isso é algo bom! É ali uma situação de ridículo. Então essa foi a iniciação dele. Então eu tô longe da pergunta, mas um dia eu chego lá porque é a coisa do raciocínio, o palhaço é assim, ele vai e ele volta.

Então o Nani (Colombaioni) inclusive quando eu fui trabalhar com ele eu cheguei dois dias antes da data de começo de trabalho na casa dele. É uma família bem tradicional e antiga e então na verdade você vai pra viver com a família por um tempo e lá você faz tudo! Então você vai tanto pra trabalhar como palhaço como limpar a bunda do elefante, se eles tivessem elefante!

Então quando eu cheguei dois dias antes, ele falou: “Tá bom então a gente aproveita esses dois dias e você me mostra teu material que você trouxe pra mim aí, teus números e tal, eu vejo e já vou na segunda feira eu já tenho uma idéia e tal... E você também me ajuda em algumas coisas que eu também preciso fazer”.

Aí eu: “Ta bom!” e tal... E ele: “Tá bom então vem cá e me mostra o número. Ta bom, ta legal! Depois a gente vê”! Ele: vem aqui Ricardo, eu preciso que você faça uma coisa. Ta vendo aquele poste lá, aquela luz do poste? Aquele poste de dez metros assim? Ta queimado! Troca a lâmpada pra mim”? Daí eu... Tinha uma escada maior que o poste e eu sou atrapalhado mesmo então o que acontece. Então pra mim trocar a lâmpada foi um número e eu tentando trocar a lâmpada, e ele só ali, velhinho só, mau humorado, só olhando e me vendo! Foi aquela confusão e depois de muito tempo eu consegui trocar, daí ta. Viu mais uns números, depois de um tempo, depois ele falou: “Ah! Vem cá”! E tinha um carrinho de três rodas que ele dirigia, que ele já era muito velho e tinha tirado a carteira de motorista então ele dirigia esse carrinho aí! Ele falou: “Debaixo ali tem um parafuso ali, você troca pra mim e tal...”. E lá ia eu desse tamanho entrar debaixo do carrinho e caía o parafuso e caía a porca e esquece o alicate e foi aquela coisa e ele consegue e tentando fazer e daí isso foi o final de semana todo! Quando acabou! Domingo a noite foi que ele falou: “ Eu entendi, você já tem de tudo! Você é aquele que não faz nada direito, não é? Você quer fazer qualquer coisa, mas não faz nada direito?! Você está sempre feliz, você está sempre querendo fazer e não consegue! Então está bom já sei de tudo! O que eu vou trabalhar com você”! Então é a mesma coisa de uma outra maneira! Então as tradições na verdade é que... voltei pra algumas coisas... Mas o pessoal do teatro fez foi beber de uma tradição e quase que recriar uma outra maneira dessa mesma tradição. Então ta, voltando ao no que a...

Andréia Pitta:

O clown que ao lírico...

Ricardo Pucetti:

...Exatamente, você falou de uma coisa do ator, não é? Eu não diria assim com tanta categoria que o ator para ser ator ele precisa trabalhar o palhaço. Mas eu digo com toda certeza que ajuda muito! Pra mim inclusive eu acho que é fundamental. Eu sei que um ator pode ser ator sem trabalhar palhaço perfeitamente! Mas da maneira, por exemplo, que o Lume trabalha com ator é importante que ele passe pela experiência do palhaço. O palhaço ensina muito algumas coisas. Primeiro a ter uma capacidade de ter uma conexão consigo mesmo, muito forte, que é importante... E outra coisa que eu acho que é a base, que é a coisa da relação com o público, que é isso que eu falei um dia na oficina, o palhaço ele não trabalha o público como uma massa, ele trabalha o público como indivíduo então ele pesca.

Então quando ele entra, ele pega um alimentão, constrói uma pequena relação um pequeno jogo, ali se espalha por algo daí ela ri ou se interessa de alguma maneira e aí o outro ali se interessa e outro, e outro e aí o riso que é físico é onde ele se espalha então essas sutilezas de perceber o público. O palhaço ensina para o ator, além de outras coisas, que pode dizer que o trabalho do corpo mesmo da maneira de usar então eu acho importante! Eu não diria que se você não trabalhou o palhaço não pode ser um ator.

S coisa do bufão eu acho muito interessante, uma vez eu trabalhei com suíço e ele fez uma diferenciação do palhaço e do bufão muito legal assim. Ele diz, eu preciso meio que fazer, ele fala da passagem de quando o bufão se transforma em palhaço. Então vou fazer a cena só aqui, sem pensar no bufão, uma coisa... Um clown acontece nesse momento quando ele vê o público. Uma questão histórica, mas que tem uma passagem de uma maneira de funcionar, que o bufão é claro que isso tudo está misturado o passo do palhaço, se você for ver não sei se você já viram o Leo Bassi extremamente provocador. Extremamente crítico, então ele tem um pé no bufão que é assim impressionante, e ele quer provocar no público não somente o riso, ele diz querer provocar medo no público e ele provoca. Mas ele consegue construir uma tal impatia que ele pode fazer o que quiser com o público mesmo que ele queira estar ameaçando o público, o público quer que ele continue.

Então ele tem número, por exemplo, que ele fala que ele quer queimar o teatro e ele faz de um jeito, que ele vai queimar o teatro e o público: “Queima!”. Ninguém está nem aí! E outras coisas, o político tem coisas que ele tem, ele bota uma máquina de lavar e liga e joga latas de coca cola dentro e fica lá dentro rodando, uma música heavy metal tocando e ele é um senhor de quase 60 anos dançando o jacaré, ele parece o anão branco do poderoso chefão, idêntico! Assim daí ele pára a máquina tira as latas de coca cola e abre, pra ver o que acontece. Lava, não é? A platéia doida joga, destrói melancia. Mas tem outro que ele pega entra com... ele tem sempre um discurso, falando porque que ele está fazendo, porque o mundo... porque blá blá blá... E é muito engraçado e muito inteligente.

E ele chega com um... assim cheio de coco e ele fala que ele vai comer, aí tem toda uma justificativa. Então o público quer morrer e ele vai comer daí ele come mesmo e daí está comendo aquele negócio, e ele tira i negócio pra fora assim, e fala: “Eu falei pra não embrulhar com papel e é pior esse papel higiênico grudado”! E o público se mata de rir. Ele conta que quando ele via os pais trabalhando, o pai, o aço e tal... ele fala que o público tinha medo dos palhaços que, que o palhaço era ma ser mítico. Uma coisa que quando chegava na cidade o palhaço era quase um xamã. Uma coisa que com o tempo isso foi perdendo, com toda essa quebra na formação, com a influência do circo americano que de uma certa maneira...

Por eles trabalharem em espaços muito grandes, circos com 3 picadeiros, grandes estádios, ginásios! O que acontecia, eles precisavam fazer tudo muito grande, muito exagerado, daí começou a virar esteriótipo, coisa pra criança, coisa que o palhaço não era antes. Ele era pra todos. Pra crianças e criança até hoje morre de medo, mas ás vezes morre de medo porque claro ela está vendo... e ás vezes o palhaço também é meio ruim, também acontece!

Mas o medo ele existe, esse ser ele pode tudo, não é? Você falou mais alguma questão? (para Ana Cristina)